segunda-feira, 23 de outubro de 2017

estacionei o automóvel em frente à casa que chamo de minha, ponto morto, puxei o freio de mão, virei a chave, a luz acendeu. Não pude me mover, uma completa ausência de mim, uma eterna preguiça de encarar quem eu escolhi ser sem que ninguém mais visse: o caminho solitário do automóvel até o interior da casa. Naquele lapso de tempo ninguém mais além de mim veria minha inércia. Realmente não existe nada de mais interessante em meu rosto além dessas olheiras roxas e do meu suor, nada que brilha e resplandece, não existe alma em meus movimentos. Eles parecem espasmos que ainda não aceitaram a falta de vigor deste corpo. Entrei, coloquei todos os objetos onde não deveriam ficar e sempre ficam. Sentada, sinto no nariz a marca nítida que lembra que meus óculos já não querem que eu enxergue, e de perto observo uma barata tentando morrer. Devia ser proibido sobreviver, devia ser proibido quase morrer. chorei. Aquela barata sou eu, as pernas viradas pro mundo, tocando o ar e mais nada palpável, estatelada no chão frio. clamei pela vida da barata sem mover um fio pra ajudá-la, mas agradeci muito àquela barata por conseguir chorar por algo, estou sem forças para chorar, aquela barata foi o mais sensível de meu dia. Aquele bicho asqueroso teve empatia por mim. Aquele bicho viu mais que olheira e suor em meu rosto. Limpei e comi minhas lágrimas, mantive aceso dentro de mim o sal dos meus olhos, desidratei meus sonhos, apaguei a luz e saí.

quarta-feira, 29 de março de 2017

O amor não é cego, não
é míope
que vê
e escolhe querer
Como me lembrar
que serei eu a enxergar
as estrias em teus seios nus
abafadas pelas roupas
e pela pouca luz
serei eu a vê-las respirar
E as manchas em tuas costas
que no fundo gostas
quando nelas
enxergo
constelações
calos
pêlos
cicatrizes
apelos
ossos
prantos
a flacidez
e os cantos
só no cerne
de nossa cama
pode-se ver as olheiras
que você esconde
e que pela manhã
mostram-se livres
da máscara facial
como a ânima
e o que ninguém mais vê
é exatamente o que se é
você de verdade
não tem roupa
nem maquiagem
você de verdade
eu vejo
todas as manhãs
com as lentes
e manhas
embaçadas
pela sua respiração
[inspirada em 'miopia' do Lucas Gemelli]

sexta-feira, 24 de março de 2017

o infinito
é muito anterior
a nós •
o infinito
também é muito
menor
a sós

de sal a eternidade dos instantes.

domingo, 12 de março de 2017

o tempo, desatador de
º nós º
que ata, desata e balança
esse barco no ar


o tempo, desatador de º nós º

instável
relapso
sozinho
pequeno
gigante
e deus

esse tempo é prece

esse tempo é o preço 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

as portas e as gavetas
todas abertas

mas as traças já comeram
todas as cartas
que eu um dia

te escreveria.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

esse nó é um cigarro

Quando se traga por vários dias seguidos
o cheiro do tabaco já parece fazer parte do que você é
E tudo o que você é, de repente, é possível sentir na ponta dos dedos da mão com a qual você escreve.
Mas basta uma pausa entre 
para que você confunda se é alívio ou saudade toda aquela vontade de ter entre o indicador e o dedo médio tudo o que você sabe sobre si e sobre o outro
se quando esse humo por momentos me fazendo sentir que
me abres o peito quando me acumulas eternamente de amores
não tivesse pausa
Ah, se esse humo fosse cotidiano...
Talvez não houvesse maneira
de agora nesse instante
me perder no que sou
tentando sentir nos dedos da mão com a qual não escrevo
o que sei sobre mim e sobre o outro.
Acho que é como se flocos de neve embranquecessem tudo que é cor com sua aparência aconchegante, porém gélida, deixando o verde bem branco e bem escorregadio o caminho por onde passo. E para continuar o passo eu precisasse, com algo rígido e pontiagudo, machucar o branco intacto e fofo do chão, do qual já não tenho memória, fincando no espaço até mesmo o mínimo e desesperado desejo de que tudo derreta.
quero te contar uma história, mas antes preciso dizer:
eu nunca vi a neve.